Adriana Tanese Nogueira
Meses antes do parto ela começou um curso para gestante. Qual escolheu? Entre os muitos no mercado, ela seguiu seu faro, aquele lá bem fundo. O faro verdadeiro é como o olfato. Não há como disfarçar o fedor, o que cheira mal é mal. Se for bonito mas cheirar mal, é mal. Se for sorridente e simpático, mas cheirar mal, é mal. Se for sem pose e simples e cheirar bem, é bem. Fim de conversa.
A mulher Perséfone da era da humanização-com-consciência tem, naturalmente, plena consciência da importância de suas intuições. Já muitas vezes, em seu percurso de crescimento, ela desconsiderou aquela voz interior e sempre descubriu depois que se enganou. Mas aprendeu a fidelidade: o que sentir de uma certa forma é para ser seguido.
Assim, no curso de preparação para o parto, por "coincidência" ela também encontra as informações importante que necessita para entender a situação do parto hoje. Sai do curso e vai para a livraria. Na seção sobre Gravidez há vários livros. Olha as capas. Aquelas que aparentam seriedade e cientificidade as descarta: cheiram mal. As fofas e femininas também: cheiram mal. Sobram uns pouco livros. Tem um que parece particularmente interessante, é de uma tal Sheila Kitzinger. Poco importa o nome, o livro aberto "cheira bem". Comprado na hora.
No livro, descobre o parto domiciliar. Ué, ela pensa, é isso mesmo eu quero! O marido topa na hora, e ela segue em frente.
No final da gestação chegam sonhos e ansiedades. Surgem medos "irracionais" e estranhos. Ela pára e pensa. Deixa fluir, ouve e analisa. Afunda o olhar e o sentimento no que vem à tona. Imerge-se no medo sem perder o rumo, tenta captar o que significa, de onde vem. Finalmente encontra o fio da meada e debela o medo.
Aí começa outra sensação curiosa: a barriga daquele tamanho, um ser dentro dela. Quem é? Afinal, quem está DENTRO dela? Estranhamento. Então ela sonha: a filha que está na barriga lhe aparece ao lado da cama, a cutuca para chamar sua atenção, e diz: "Mãe, sou eu." A mulher Perséfone da era da humanização-com-consciência a olha, a menina tem uns dois anos mais ou menos, e se parece muito com ela mesma naquela idade. Então se acalma. Agora sabe quem está dentro de sua barriga.
Chega o último mês. A ansiedade cresce e vem o medo de morrer. Parto pode dar em morte. Ela está muito nervosa, quase que briga com todo mundo. Mas enquanto vive isso tudo, se observa. Medo de morrer... Vamos ser honestas: isso é possível. Nada de enrolação. Morrer faz parte da vida e não temos controle sobre nada. Encarada a realidade, o medo mingua.
Aí vem o pavor da dor desconhecida. Será que vou aguentar? Como saber se nunca a vivi antes? Como, sem parâmetros para mensurá-la? A mulher Perséfone fica nervosa. Busca meios para acalmar-se. O jeito seria que, se não aguentar, a médica realiza uma cesárea ou qualquer coisa que tire a dor. A médica há de prometer que respeitará sua vontade.
O subterfúgio mental funciona. Esse medo também mingua e dilui-se no passar dos dias. De repente, tudo parece correr, o tempo se arrasta enquanto a barriga desce e a mulher Perséfone vai levando até que uma noite sente a primeira contração.
Chegou, diz ela com um sorriso malicioso. E é pura calma. As tempestades do passado recente não deixaram marcas. Ela tem visão de anjos e do feminino divino. Relaxada dorme em profundidade entre uma contração e contra. O tempo corre sossegado. A doula chega, o que ela faz pouco importa à mulher Perséfone da era da humanização-com-consciência, pois ela confia plenamente na doula que escolheu e fez bem. A doula faz "quase nada", por muitas horas ora e emana boas energias - o que para esta mulher é uma benção.
Enquanto isso, com a parteira começa a dança do trabalho de parto e parto. Mãos nas mãos, olho no olho, a dança segue seu curso até o desfecho final. É quando Ártemis entra em cena e com gritos de lutador de karaté, a mulher Perséfone dá à luz e sua bonequinha dos sonhos nasce.
P.S.: Texto inspirado em minha história pessoal. Foi irresistível. :-)