Adriana Tanese Nogueira
Esta mulher é muito comum no Brasil, quero dizer a mulher Perséfone. Povo sofrido mas cheio de intuições, sensações e visões espirituais, o brasileiro gosta de um tarô, mapa astral e roda mística.
A mulher Perséfone pré-humanizada seguirá essa onda mas sem muita profundidade. Sua preocupação maior com relação ao parto será ter os planetas propícios no momento em que seu bebê botar a cabeça para for a de seu corpo. Ou melhor, for forçado a fazer isso. Porque é quase certeza que a mulher Perséfone pré-humanizada fará uma cesárea.
Perséfone não é uma deusa do corpo, mas da alma. E a mulher pré-humanizada não saberá bem como lidar com sangue, dor e entranhas. Essas coisas lhe parecem esquisitas. Ela tem medo, sentem-se uma alienígena diante desse mundo e não quer pensar muito no que lhe causa desconforto. Portanto, que seja cesárea, mas bem “planejada”.
Conforme a data provável do parto (e a agenda do médico) a mulher Perséfone pré-humanizada indagará sobre o melhor momento para o nascimento. Também conferirá os antepassados e os famosos que nasceram naquele dia. Estudará as estrelas, pesquisará qual a melhor combinação de planetas para integrar o mapa astral familiar e finalmente marcará a cesárea.
O problema da mulher Perséfone é que ela tem uma ferida que não ousa tocar. Seu sentimento não pode ir fundo porque encontraria algo com o qual não sabe lidar e portanto foge. A vocação da mulher Perséfone é profundidade. Mas isso dói. Como dói o parto. Ela então permanece na sala de espera e se ocupa com decorações, por não poder chegar à raíz da (sua) questão.



