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01/03/2010

O parto da mulher Perséfone na era da humanização-por-princípio

Adriana Tanese-Nogueira

Assim como a mulher Héstia, a Perséfone é muito sensível. Ela precisa de proteção. Sua intuição é aguçada mas confusa pela falta de clareza interna, isto é de autoconhecimento. Muitas vezes, ela não distingue se o que sente é uma intuição, aquela "sensação premonitória" ou se é simplesmente seu desejo, ou medo ou ansiedade que manipulam sua percepção da realidade. Essas coisas só se resolvem com o auto-conhecimento que leva à auto-consciência.

Mas na era dos princípios, o que está em pauta não é ainda o indivíduo como um todo, com o dentro e o fora, o alto e o baixo, o feminino e o masculino, a mente e o corpo, a racionalidade e a irracionalidade. Na verdade, esta é uma era de transição para a real mudança de paradigma. Ela está na fronteira e seu único problema é que confunde o velho com o novo, achando-se mais de vanguarda do que realmente é.

A mulher Perséfone na era da humanização-por-princípio concorderá com o princípio do parto natural pois sente na pele o quanto o sistema da obstetrica-padrão é grosseiro, rude e obtuso. Racional e geométrico do jeito que é, é impossível uma mulher-Perséfone sentir-se à vontade nele. Ela também perceberá, nesta nova fase, sua insegurança e dificuldade de lidar com médicos e hospitais. Sua timidez. É como se ela não soubesse bem o que fazer com a variedade de diferentes sensações que tem frente a eles e retrai-se acanhada.

Mas não desiste, buscará ajuda. Se tiver a sorte de encontrar uma boa parteira, seu problema estará resolvido, pois esta poderá oferecer-lhe as condições para uma experiência profunda do parto - isto se a mulher Perséfone fizer sua parte.

É isso que muitas mulheres não entendem. Não basta encontrar a profissional certa ou a ajuda correta. O parto é da mulher. Isso é o básico da humanização. Apoiar-se em bengalas é lícito, mas delegar o parto não. O que acontece com este tipo de mulher Perséfone é que ela, na ansiedade de fugir do sistema, não considerou a importância de cuidar de seus próprios movimentos internos.

O "parto fisiológico" é um conceito massacrante para a mulher Perséfone, que é toda alma. É um fracasso predestinado. Ela precisa da garra das companheiras extrovertidas que promovem o parto fisiológico e "esclarecido", mas ficar nele é uma condição deplorável para Perséfone porque ela estará totalmente alienada de seu mundo interior, o que a sustenta e lhe dá indentidade.

Portanto, esta mulher, mesmo encontrando as pessoas certas - o que é uma raridade, pois muitas das boas no mercado ainda são racionais e superficiais demais para Perséfone! - se ela não estiver pronta para atravessar o portal ficará na soleira.

A depressão pós-parto é um evento esperado.

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