Adriana Tanese Nogueira
Héstia é uma deusa tímida, mas não no sentido de que é insegura. É que o barulho, a correria, as brigas e confusões do mundo de hoje a assustam. E Héstia se retrai.
A mulher Héstia pré-humanizada é aquela, como todas suas outras irmãs, que vive isoladamente seu chamado, desconectada das outras deusas - ou partes internas - e sem consciência de si. Ela simplesmente segue a manada, sente-se bastante desconfortável mas segue.
Ao ver-se grávida, ela estará contente. A gravidez pede introversão e isso Héstia sabe fazer bem. Ela irá curtir a barriga, acariciá-la, buscar roupinhas ou tricotá-las ela mesma,
cuidará da alimentação e manterá o mais possível um ritmo pousado e tranquilo que só pode fazer bem à gestação. Não buscará informação porém, não correrá atrás (Héstia não corre meeesmo). Infelizmente, usará a gestação para esconder-se, mais uma vez.
No consultório do médico, será facilmente manipulada. Sua docilidade, voz baixa, estilo tranquilo são um prato cheio para qualquer médico tradicional. Quem não quer uma paciente assim? Paciente por definição!
A mulher Héstia pré-humanizada não colherá as sutilezas manipulatórias e não saberá reagir às grosserias e falta de respeito que encontrará no hospital. Sua percepção mais aguçada porque treinada pela introspecção lhe dará a visão de tudo o que está acontecendo, mas ela o sofrirá, incapaz de reagir.
Enquanto isso seu filho já nasceu. Foi naturalmente de cesárea - o mais conveniente para os outros. Se ela tiver tido sorte, foi um parto normal hospitalar com todas as intervenções de costume. Ela ouvirá os papos e brincadeiras da equipe que faz seu filho vir ao mundo. Ouvirá atordoada e confusa. Demorará muito tempo para elaborar o que aconteceu. Até sua percepção ser traduzida em palavras e conceitos racionais vai passar no mínimo todo o pós-parto, o puerpério e quem sabe até a amamentação.
Ela é como uma pluma voando ao sabor dos ventos ou como uma briza leve facilmente sufocada pelo bafo pesado da falta de sensibilidade do mundo à sua volta. Mas ela não o sabe, sente mas não entende direito. Sofre e continua calada.

2 comentários:
mas a estória não termina aí, termina?
Não termina não...
Estou dando só uma rápida visão desse tipo de mulher relacionada ao parto - assim como faço com as outras. Pelo jeito você queria uma completa visão que incluisse outros aspectos da vida desse tipo de mulher...
Quem sabe eu faça... :-)
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