Adriana Tanese Nogueira
Ao descobrir "humanização" e "protagonismo da mulher", a mulher Héstia sentir-se-á atraida e, como que de longe, paquerará o movimento. Ela aspira a engravidar de novo e quer se preparar para evitar a experiência anterior, portanto, focará toda sua atenção no que falam as "autoridades" no assunto.
A mulher Héstia entrará em listas de discussão e lerá as mensagens, mas pouco participará porque ela é, como se sabe, retraída, quanto mais na frente dessas mulheres ativas e decididas. A mulher Héstia sentirá-se-á mais tímida do que nunca. Mesmo assim, de vez em quando, lá estará ela, subindo ao palco e dando seu pitaco, elogiando, agradecendo e confraternizando.
Com o passar do tempo, a mulher Héstia começará a sentir-se entusiasmada - palavra essa
difícil até de ser administrada, quanto mais vivida. Dentro di si, idéias, palavras e sentimentos estarão numa festa só e ela sentirá que o momento de engravidar estará se aproximando.
Percendo sua fraqueza e vendo de olhos arrebatados aquelas mujeres corajosas e destemidas, ela tornar-se-ão suas heroinas. Quando mais em silêncio a mulher Héstia permanecer, incapaz de quebrar sua própria mordaça, mais idealizará as outras. Elas lhe parecerão referências e apoios insubstituíveis - mesmo quando seus defeitos se manifestarem. De fato, por ser mais introvertida, ela poderá reconhecer algumas limitações na ação e visão dessas mulheres, mas a mulher Héstia trancada como está em suas clausura interna se manterá fiel a suas heroinas, custe o que custar.
Ao engravidar, de imediato irá escolher uma doula, uma que terá dado provas (em discursos e atitudes) de ser "poderosa", provavelmente do tipo da mulher Hera (precisamente esta aqui), porque é exatamente o poder que lhe falta, aquele jeito meio arrogante de quem tem peito e peita. A mulher Héstia as admira de coração, mesmo vendo que podem botar os pés pelas mãos e fazer algumas coisas pouco apropriadas.
Contratará então uma doula-Hera e se preparará para o parto. Ela se entregará as recomendações de sua guia, a qual recebendo tamanha confiança e sendo uma mulher com muitos princípios e pouco bom senso, poderá assumir o controle mais do que sua cliente até mesmo perceber.
Na hora do parto, a mulher Héstia, naturalmente estará com medo. Toda a preparação que obteve de sua doula não inclui os aspectos psico-emocionais tão importantes para a mulher Héstia, de modo que o medo será maior do necessário. Enquanto isso, a doula-Hera glorificada pelo cetro recebido da sua cliente nos meses anteriores, entrará no hospital com a mesma altivez que sua igreja do movimento lhe ensinou e pretenderá promover uma verdadeira revolução, pelos "direitos das mulheres", "agora e já".
A "Doula em pé de guerra" e a mulher Héstia em seu silêncio serão o mais perfeito casal de complementares. Uma excessivamente ativa e masculina, a outra excessivamente passiva e submissa.
Resultado? No artigo acima mencionado (Doulas em pé de guerra) a grávida teve a sorte de ter um médico que conhecia outra doula que salvou a situação. Em outros casos, o resultado varierá conforme a combinação seguinte: maior a insegurança e a delega de poder da mulher Héstia para com a doula-Hera, pior o desfecho do parto. Maior a consciência e a independência da mulher Héstia melhor o parto. Ela irá sempre apoiar-se numa doula-Hera, mas sem perder-se. Perseguirá seu objetivo e possivelmente conseguirá porque o que a ajuda é sua introspectividade.
Conheci uma mulher Héstia dessas que até conseguiu que seu segundo parto fosse na santa paz do domicílio, mas enquanto isso ela edossou e apoiou uma das doulas mais anti-éticas da história de seu país.

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