Bem vinda ao meu Blog! Empoderando as mulheres é uma nova abordagem às questões da psicologia feminina. Se quiser me contatar escreva para: adrianatns@hotmail.com. Estou disponível para sessões online!
RSS

16/01/2010

O Parto da Mulher Hera na Era da Humanização-por-Princípio


A mulher Hera desta época tem o vago e confuso sentimento de ter sido despojada de um status que lhe pertence de direito. Ecoa dentro dela uma revolta muda e dolorida, mas a mulher Hera ignora como expressá-la e o que fazer com ela.

Eis que ao encontrar a humanização-por-princípio esta lhe parece perfeita, cai como uma luva sobre a alma tumultuada. Sua problemática interna a torna sensível às palavras de ordem do tipo: protagonismo da mulher, o parto é nosso, mutilação genital, violência obstétrica e etc. Estas palavras encontram um terreno fértil lá onde o antigo anseio da mulher Hera pelo poder foi abafado e uma ferida profunda eternamente a incomoda. 

Finalmente, a mulher Hera desta época tem um espaço onde desabafar e uma bandeira para levantar. Ela encontra as pessoas que lhe devolvem aquele "empoderamento" do qual andava em busca. O movimento a confirma e aquela revolta submersa pode finalmente respirar. As informações e as trocas que a mulher Hera recolhe ao longo dos meses de gestação frisam seu direito e por esta lente ela focaliza tudo o que lhe foi feito e continuam lhe fazendo de errado.

Sua determinação a "lutar pela redução das cesáreas" e a "empoderar as mulheres" se fundamenta no conhecimento do valor feminino do parto humanizado. Mas não termina aqui. Seu engajamento recebe o gas subterrâneo de outras camadas da alma. Seu comprometimento tem a forma de num iceberg, o parto humanizado se situa no ápice mas a base afunda na raiva poderosa e ancestral de milênios de maus tratos contra as mulheres.

Na humanização-por-princípio, esta mulher Hera tem a oportunidade de resgatar-se. Finalmente existe algo concreto que ela pode fazer para virar o jogo e justamente o da mesa dos mais poderosos: os médicos. Que desafio mas intrigante!

É assim que a mulher Hera vai estudar as bíblias médicas e armar-se de palavras e conceitos para a guerra contra o homem. Se ela for uma grávida novata do movimento irá vincular-se a uma doula que encarne seu próprio espírito. Nela confiará para defendê-la do médico, do sistema, do hospital. Levará a doula para as consultas obstétricas para que retruque às artimanhas do profissional. Desafiará o parecer dele, esconder-lhe-á exames e finamente tratá-lo-á como um funcionário não fidedigno sobre o qual descontar o incômodo que milênios de submissão feminina borbulha em toda alma de mulher.

E na hora do parto, o que vai acontecer? Certamente, esta mulher não trabalhou suas emoções, não só porque não sabe como lidar com elas e sua doula de confiança também não, como porque emoções nos fazem sentir vulneráveis e a mulher Hera está decisamente cansada de sentir-se assim.

Ao chegar a data previsa do parto, o corpo da mulher Hera da era da humanização-por-princípio não irá abrir-se. Afinal, ela passou meses estruturando-se para lutar contra o sistema. A desestruturação do trabalho de parto não tem chances de acontecer. Aquele afrouxamento dos ligamentos, aquela entrega dolorida, prazerosa, erótica... são impossíveis nessas condições.

A Hera tradicional tem pouca simpatia por Afrodite, desconhece por completo Ártemis e não é amiga de Deméter. Sua vontade está voltada para fora, por isso não sabe estar em si, como Héstia. Suas ambições de poder a afastam de todos os aspectos do feminino que propiciam o amor gostoso e a entrega de olhos fechados. Essa mulher tem enorme dificuldades para mudar seu estado de consciência para poder dar à luz.

O médico, seu antagonista, terá de entrar no cenário e socorrê-la. Mais uma cesárea.

A ferida na alma da mulher Hera permanecerá profunda e triste por muitos anos afora, podendo convertir-se em mais raiva e revolta ou deflacionando-se sobre si mesma.

0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts with Thumbnails