Adriana Tanese Nogueira
Na era da humanização-com-consciência, a mulher Atena vai reconhecer o aprendizado que vem da humanização-por-princípio. Concordará com todos os princípios anteriores e, como suas irmãs, achará escandalosa a condição da obstetrícia moderna. Entretanto, ao invés de seguir princípios, ela vai personalizar sua conduta.
Todo mundo sabe que a maior qualidade da deusa é a Sabedoria. Atena é estrategista e sábia. Promove o conhecimento e a educação, divulga informações. Mas sobretudo é sábia. Por este motivo, ela percebe que não é entupindo-se de noções e princípios que irá fazer seu parto. Ela tem perfeito conhecimento de que o seu é o mundo da mente, enquanto que o parto pertence ao mundo do corpo e dos instintos no qual muitas vezes sentiu-se desconfortável.
A mulher Atena dessa era tem consciência de suas limitações. Por este motivo é que estabelece estreita amizade com as outras deusas. É esperta o suficiente para não perturbar o trabalho das outras.
Em primeiro lugar, vai lidar com o x da questão: suas emoções. Sim, porque ela vai reconhecê-las e chamá-las pelo nome. Medo é medo, insegurança é insegurança, tensão de casal é tensão de casal, uma mãe opressora é um fardo não pequeno. A mulher Atena da era da humanização-com-consciência não vai mascarar a realidade porque ela sabe que o tiro sai pela culatra. Ao invés disso, deixará que quem entende do assunto cuide de suas emoções: Perséfone.
Essa mulher Atena não é boba. Sabe muito bem como é fácil racionalizar para suprimir sentimentos incômodos. Ela não vai ser tão ingênua de querer curar as emoções com informações racionais! Onde já se viu? Só no mundo cartesiano se faz esse tipo de coisas. A história mostra que é receita certeira para o fracasso. Essa mulher Atena está atualizada. Há mais de 100 anos sabe-se que existe um inconsciente que interfere com a vontade da consciência.
Ela também tem conhecimento de que as emoções interligam-se com as reações físicas. Sabe que o corpo não é uma máquina e por isso conforme o que se sente haverá manifestações físicas diferentes. Coerentemente, ela entende o parto como o resultado de seu ser inteiro, que portanto ela vai levar em consideração em todos seus aspectos.
Assim, dará as boas vindas para a deusa Ártemis para que a acompanhe desde o início da gestação. A mulher Atena segurará sua tendência a querer entender tudo. Há coisas que não se pode ou não são para entender. Ao invés disso, é preciso saber seguir instintos. Pessoas, médicos, lugares, comidas, movimentos, livros, informações devem passar pelo filtro de Ártemis. Não tudo o que parece bom faz bem para nós agora. Saber fechar os olhos para o que está na superfície e seguir o que se sente é essencial. A sábia mulher Atena não busca equações matemáticas e silogismos lógicos. Ela quer equilibrar-se, consciente de estar lidando com um mundo novo cheio de variáveis não sempre controláveis.
É por isso que Afrodite vai ter seu lugar todas as vezes que sua sensibilidade será ouvida e acolhida. Essa mulher Atena aceita a delicadeza do estar grávida e lhe faz lugar. Portanto, não vai se colocar em situações que a ferem. Sejam elas em sua casa ou com amigas, colegas, grupo, família. Ela vai deixar que sua sensibilidade aguçada a guie.
Sendo observadora e com os pés no chão, essa mulher Atena perceberá que o mundo não é feito para grávidas e bebês e delicadeza. Notará que muitas pessoas querem ajudar mas não respeitam sua individualidade. Perceberá também que até quem concorda com seus planos para um belo parto domiciliar tenta assumir a liderança. É a vez de fazer trabalhar a deusa Hera e de botar cada um no seu lugar, que é fora da sua casa.
Héstia com sua necessidade de intimidade, aconchego e silêncio será sua melhor conselheira. Por estar com Perséfone ao lado, esta mulher Atena não irá temer estar sozinha, penetrar em si mesma e sentir o que lá dentro há. Não precisará encher-se de noções, idéias e opiniões para abafar a tremedeira interna, para calar as inseguranças.
Tendo honrado todas as deusas, todos seus aspectos humanos estarão incluidos e, na hora do parto, ela poderá ter a serenidade necessária para atravessar o portal. Ártemis estará no controle de seu corpo, Perséfone governará o mistério da vida e Atena cochilará tranquila. Seu parto está em boas mãos.
Uma vez com seu bebê no colo, Deméter recém-nascida o abraçará em lágrimas de felicidade e como uma ursa cuidará dele. Tendo uma forte Deméter ao lado, a mulher Atena resistirá facilmente à tentação de alienar-se. O tapa na cara que toda mulher recebe ao se tornar mãe - que consiste no fato de sua vida ser transformada num serviço 24x7 em função do bebê - é aceito alegremente por essa mulher. Aliás, parece que seu filho percebe que a mãe está de bem com sua maternidade e portanto dorme em santa paz, mama com vontade, sorri feliz e cresce suavemente e sem esforço.

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